20.11.09

Uma reflexão pelo Dia da Consciência Negra. Havia um tempo em que "preto não entrava no Bahiano nem pela porta da cozinha", lembra Gilberto Gil. Na letra de Tradição, o cantor fala da infância, quando "quem governava a Bahia era Antonio Balbino (1955-59)". A música me veio à mente ao me lembrar de um fato que ilustra bem a pretensão e arrogância de 'intelectuais' que insistem em achar que nós não somos racistas. Trabalhava como editor de economia naquele que já foi o maior e mais importante telejornal do país. De uma hora para outra, partiu uma ordem que nos obrigava a procurar 'fontes negras'. Ordens assim deixam a chefia excitadíssima. A redação entra em frisson. É obrig - abreviação de obrigatório. Para outros, é rec - abreviação de 'recomendado'. Bom, foi um Deus nos acuda. Os produtores se descabelavam atrás de pessoas que pudessem representar a 'novíssima política de cotas' adotada pelo telejornal. Como abastecíamos diariamente a rede com matérias de economia, o nó foi maior ainda. A única fonte negra nas agendas nem era economista, era o consagrado geógrafo Milton Santos, que não era assim tão bem-vindo, afinal de contas, sua visão de mundo era bem diferente do que consagramos como 'senso comum': "A velha tendência intelectual é considerar o mundo a partir da Europa, e agora dos Estados Unidos. Assim, se exclui a perspectiva da maior parte da humanidade. A cultura oficial brasileira nutriu-se com frequência de uma visão vesga do mundo." Havia um produtor negro entre nós, o Edvaldo,(atalho para o blog dele ao lado)bque não dizia, mas se sentia ultrajado. Mas, voltando ao assunto, tínhamos porque tínhamos que encontrar negros para entrevistar. Eis que surge uma consultoria, dessas que opinam sobre todos os assuntos, de telecomunicações à taxa de juros - e nos apresenta um economista negro. Ufa! Lá fomos nós para a entrevista. Quando a repórter chegou ao local, lá estava nosso economista negro. O homem tremia mais do que vara verde e não conseguia terminar uma frase, sequer. Digamos que a repórter também não era das mais calmas. Resultado, sobrou para o editor cortar um pedaço em que ele dissesse, sem gaguejar, o de sempre: Que tá tudo bem, mas tem que fazer as reformas. Pouco depois, o noticiário ganhou um apresentador negro, mas que só aparece no fim de semana, para dar 'uma cor diferente' ao jornal de branco, que ainda hoje mostra do "alto a fila de soldados, quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos, tratados como pretos, só pra mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pretos). E aos quase brancos, pobres como pretos, como é que pretos, pobres e mulatos, e quase brancos, quase pretos, de tão pobres, são tratados...", para ficar em Caetano, agora amparado por Gil. Quando é que esses 'intelectuais' vão entender que o Brasil não é o Jardim Botânico? Ainda bem que o brasileiro está começando a perceber isso!
Este 'post' foi publicado originalmente em 23 de agosto deste ano.

19.11.09

Estou aqui para deixar meu curriculum com você, disse ao diretor de jornalismo, em maio de 2003 (o diretor era aquele que havia sido afastado...). Não sei quais critérios irá adotar para escolher o novo editor do jornal da hora do jantar mas, se o critério for baseado na carreira profissional, acho que atendo aos requisitos, justifiquei. A estratégia havia sido decidida na noite anterior, depois de uma conversa com a minha mulher. Ela achava que seria muito arriscada. Da minha parte, considerava que seria a melhor maneira de me credenciar e 'deixar o bode na sala' do chefe. Não tinha QI (quem me indicasse), ao contrário dos outros três candidatos. Contava portanto com a sorte e um pouco de ousadia. O chefe argumentou que seria difícil encontrar quem me substituísse no jornal tarde da noite. Afinal, não são todos que gostam de política e estão preparados para esta função. A decisão só sairia na semana seguinte. Aproveitei o tempo para fazer as 'costuras'. As editoras chefe e executiva do jornal tarde da noite estavam em pé de guerra. A direção teria que por fim à crise. O plano era levar a editora-chefe para um cargo provisório, no programa semanal de reportagens. Quem ocuparia o posto de editor-chefe seria o coordenador do telejornal do jantar, em São Paulo, com delegação plena de poderes, para enfrentar a editora-executiva, que seria mantida no cargo. Procurei o colega cotado e apresentei o plano: ele me indicaria para a vaga do jornal do jantar e resgataríamos nosso colega Luis Cosme, aprisionado no calabouço, do telejornal cedo da manhã, depois de se desentender com o diretor. Só um parênteses: hoje, Cosme é editor-chefe do Jornal da Record, em que trabalho. O plano deu certo. Dias depois, a editora que seria promovida à coordenação do jornal do jantar me chamou para um café. Disse que assumiria a nova função e gostaria de saber se eu aceitaria a indicação para a vaga de editor de economia, no lugar dela. Respondi que estava pronto. No dia seguinte à minha nova designação, fui para o café da manhã com o CEO, a Rainha da Inglaterra. (A rainha é quele gestor que se encontra com funcionários do chão de fábrica uma vez por mês para, em nome da empresa, conhecer melhor os 'colaboradores', sentir o pulso da redação, passar a mão nas cabeças e tirar fotografias). Cumpri rigorosamente meu script. Falei para um grupo de doze pessoas que não tinha padrinhos e que, minha nova designação, era um atestado de que as organizações tinham disposição para premiar funcionários por mérito. Mas que foi preciso 'deixar o bode na sala', isso foi!

18.11.09



Ex-empregada afirma ter um filho com FHC:
Leonardo, 20 anos

A afirmação é do ex-porta-voz de Fernando Collor de Mello, o jornalista Cláudio Humberto Rosa e Silva. Veja "com os próprios olhos", o que ele escreveu no seu blog hoje, o atalho é este: http://www.claudiohumberto.com.br/principal/index.php

Uma ex-empregada afirma ter um filho com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em Brasília. O rapaz, hoje com vinte anos de idade, é Leonardo dos Santos Pereira, que trabalha como carregador (auxiliar de serviços gerais) em um órgão público, na Esplanada dos Ministérios. Ele nasceu da relação do então senador FHC com sua empregada Maria Helena Pereira, uma negra que o impressionava pela formosura. Leonardo é considerado muito parecido com o pai.


Comentário: É o nosso Fernando Lugo Cardoso? Será que Leonardo também está no testamento? Para Míriam Dutra o reino dos céus. Para a ex-empregada, um cala a boca. É, realmente não somos um país racista mesmo!

Comentário do Eduardo Guimarães no Cidadania: "Se for verdade, se houver segurança absoluta de que o ex-presidente engravidou uma funcionária, talvez usando seu poder de pressão de patrão e político poderoso para seduzi-la, acho que o assunto seria, sim, de interesse público. Contudo, alardear isso por meio de boato, sem maiores provas, acho imoral".(...) "Quero deixar uma coisa bem clara: se eu tiver que me transformar naqueles que combato para combatê-los, prefiro entregar os pontos. Até porque, acho desnecessário usar esses métodos quando há outros tão mais eficientes como, por exemplo, usar a verdade, que considero uma força da natureza".

Para ver tudo: http://edu.guim.blog.uol.com.br/
Você fala demais. O recado veio do diretor de jornalismo de São Paulo (aquele talentoso, exilado, depois que o Guardião da Doutrina da Fé tomou de assalto o jornalismo da emissora). O portador da mensagem era o então apresentador do matinal, José Roberto Burnier. Era início dos anos 2000. Conhecia o Zé Roberto desde noventa e dois, quando frequentamos juntos a primeira turma do curso de formação de governantes da Escola de Governo. Quatro anos depois, nos reencontramos na redação da afiliada de Ribeirão Preto e só passamos a trabalhar juntos, depois que voltei a São Paulo, no fim dos anos 90. Ele e o diretor tinham ficado contrariados, porque eu havia pedido que Carlos Nascimento, com quem trabalhei antes, conseguisse com o chefe uma vaga para mim, no jornal da hora do almoço, onde ele estreara. Consideravam que meu papel no jornal cedo da manhã era importante e de difícil substituição. Só não queria morrer naquele horário, tendo que acordar às 3h30 da madruga para trabalhar. O pessoal até brincava que eu deixava a cama quentinha para o 'Ricardão', hehehe. Nascimento se ofereceu para pedir a vaga, caso eu quisesse. Disse que sim. Mas o diretor recusou. Informou que tinha outros planos para mim. E, de fato, tinha mesmo. Em agosto de 2000, sem que eu fosse sequer consultado, estava escalado para ser o novo editor de política do jornal tarde da noite. Pouco mais de um ano depois, protagonizaríamos uma das mais extensas e bem-sucedidas coberturas jornalísticas de todos os tempos: O 11 de Setembro de 2001. Estava dormindo, quando minha mulher me chamou, pouco depois das 9h da manhã. A programação tinha sido interrompida, assim que houve o primeiro ataque. Nascimento, na bancada, narrava os acontecimentos, enquanto as emissoras americanas transmitiam ao vivo, para todo mundo, o trágico espetáculo. Pouco depois, Ana Paula Padrão chegaria para dividir com ele a bancada. Fiquei o dia todo colado à TV e na Internet. Quando cheguei à redação, por volta das cinco da tarde, o diretor olhou para mim, olhou para o relógio e disse? Isso é hora de chegar? Você sabe o que está acontecendo? E eu respondi: - Alguém precisa ser o último a sair, não acha? E ele respondeu: - Ainda bem que você já sabe que está de plantão de madrugada. Para quem entrava às 3h30, sair nesse horário, é happy hour! brinquei. Às vezes, falar demais é bom, não acham?

17.11.09

O ex-porta-voz do então presidente, hoje senador, Fernando Collor de Mello, Claudio Humberto Rosa e Silva, reclama que há mais de dez anos noticia, “quase que solitariamente” a existência do filho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, nascido em setembro de 1991. Ele afirma em sua coluna, hoje, que quem forçou o exílio da repórter Míriam Dutra, foi o próprio Fernando Henrique. (Se isso é mesmo verdade, precisamos saber como a Rede Globo recebeu essa pressão). Sabe-se (à boca pequena) que um importante vassalo da Corte do Cosme Velho, à epoca ligado ao presidente Collor, tinha acesso ao apartamento da repórter Miriam Dutra, para que pudesse manter encontros secretos com uma deputada casada, mas que não estava feliz com sua vida conjugal. Como foi que esse vassalo convenceu os donos da emissora a despachar sua repórter para a Espanha? Que interesses jornalísticos a emissora tinha naquele país, naquela época? Na condição de correspondente, quantos trabalhos importantes Míriam fez por lá? Quem a mantinha? E por qual salário? Em noventa e um, o senador ainda não tinha a importância que viria a ter, o que é preciso ressaltar, do ponto de vista do 'contexto histórico'. Claudio Humberto também afirma que o ex-presidente FHC admitiu reconhecer o filho, em 'testamento fechado', apenas quando ele tinha 8 anos de idade, portanto, é bem provável que, antes, não mandasse pensões ao menino. Ao assumí-lo, dona Ruth Cardoso teria exigido “clandestinidade”, também segundo Claudio Humberto. À mãe, Miriam, coube a discrição dos últimos dezoito anos, com a crença de, assim, fazer uma blindagem ao garoto. Mas hoje, sozinha e sem perspectiva profissional, revê o sacrifício feito à luz do acordo político que permitiu aos dois (FHC e às Organizações) mudarem o rumo da história política do país (mais uma vez!). Depois que dona Ruth morreu, Fernando Henrique decidiu se aproximar mais do filho caçula. Mas quem não vê em FH um pai de verdade, agora, é o próprio filho. Muitos vão dizer que são 'os sortilégios da vida'.

16.11.09




EXCLUSIVO!

Aqui está a única foto disponível de Tomas, no Facebook (este é o famoso filho caçula do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso). Outras fotos e informações ele não compartilha com todos, só com os amigos. O que quer dizer que é preciso enviar a ele um convite e, se ele aceitar adicioná-lo, aí sim você terá acesso às informações do perfil e aos amigos em comum. Dizem que é a 'cara' do pai.
Boa sorte!

15.11.09




EXCLUSIVO!






Os jornais informam errado. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não decidiu oficializar o reconhecimento do filho que teve com a jornalista Miriam Dutra, da TV Globo. Ele já o fez, num cartório em Madrid, na Espanha, onde vive a 'correspondente' da emissora. O nome do jovem já foi, inclusive, incluído no testamento do ex-presidente, que não quer que os filhos fiquem brigando por herança, depois que ele partir desse para o outro mundo. Tomas Dutra Schmidt, de 18 anos, vive em Washington e ligou assustado para mãe hoje, depois de receber mais de quinhentos convites pelo Facebook (uma rede de relacionamentos pela internet, que é mania no Brasil, depois do Orkut). Os convites vieram, depois que 'coincidentemente' o jornal Folha de S. Paulo trouxe a notícia no primeiro caderno, pela jornalista e colunista da Ilustrada, Mônica Bergamo. Oficialmente, Fernando Henrique nega, porque não quer dar publicidade ao caso, considerado uma questão íntima, de família. Até seria, não fosse o caso dele ter se transformado em presidente da República e a Miriam passar todo este tempo 'exilada' sozinha, recebendo salários da família Marinho, detentora de uma concessão de serviço público. Hoje, Tomas tem 18 anos e sente na pele como é viver segregado e escondido. Quanto ao ex-presidente, na idade em que está, faz mais do que bem pacificar o seu passado. Quem sabe sua nova namorada, uma jornalista (mais uma?) não esteja ajudando-o neste doloroso processo. Sinto por eles, pelos filhos, mas sinto imensamente pelo país, que exige explicações sobre a relação promíscua de silêncio que se deu entre a grande imprensa e o ex-senador, ex-ministro de Estado e ex-presidente da República.
A PEDIDOS 3 (tem que ler de baixo para cima):
Extra! Extra! Mais ficção. Aquela repórter que estava exilada deixou o esporte bretão. Agora joga como meia-ofensiva no canal a cabo da emissora, a partir da ibéria. O filho (aquele) está em Washington, estudando (pasmem) a soldo do pai! Finalmente... Informações que partem do Jardim Botânico dão conta de que a rainha da inglaterra lavou as mãos e entregou seus amigos mais próximos às feras. Parece que há em curso uma operação salve-se quem puder. E para livrar o próprio pescoço da forca, avisou: - Não contem comigo (uma espécie de esqueçam o que escrevi). O problema é que muita gente pode ficar ressentida com esse tipo de atitude individual e egoísta. Está certo que parte dos esqueletos é problema da Corte do Cosme Velho, não dos seus vassalos, exclusivamente. Mas quando o vendaval chega, costuma ser implacável e arrastar tudo. Mas se alguém perguntar se é verdade, eu nego.
A PEDIDOS 2:Parece que os leitores gostam mais de ficção do que de realidade.
Então, vamos voltar à série faz de conta. Digamos que eu contasse que, logo depois que foi exilada na península Ibérica, a soldo das organizações, nossa repórter, já com o rebento ao colo, atendia com alguma frequência aos telefonemas daquele que já ocupou importante posto da República e que, desiludida e desamparada, insistisse em afirmar: - Você arruinou a minha vida! Estou aqui, sozinha, sem poder viver a minha história, à sombra de um erro que você não quer admitir que cometeu. Isso não é justo! Isso não é justo! E se eu também contasse que o apartamento dela, na Capital Federal, foi usado antes dela ser despachada, portanto com sua generosa complacência, pelo mais importante vassalo da Corte do Cosme Velho, à época, para encontros amorosos com uma das mais belas Deputadas Federais, que era casada. E se lembrasse, ainda, que certa vez um jornalista, cujo pai - quando vivo - foi um dos principais 'formuladores' das teses do principal partido da oposição, convidou uma colega das organizações para jantar e a colega disse: - Posso levar uma amiga? Ele consentiu. E ela, por sua feita, resolveu levar mais um amigo, que por sua vez, era o tal em questão, que viria a assumir importante posto na República? Qual não foi o constrangimento do repórter, filho do figurão, ao dar de 'cara' com aquele que seria... Calma, tem mais! A exilada, hoje dá expediente no escritório internacional da 'firma', na Comunidade Européia. Certo dia, ela chegou para o chefe - uma espécie de embaixador da 'rainha' naquele país - só para lembrar, a rainha é aquela que toma café da manhã e passa a mão na cabeça dos súditos. Ela chegou para o chefe e pediu um dia de folga, porque teria um encontro com o pai do filho dela. O chefe não autorizou, salvo se ele fosse junto com a família dele (alegou interesse jornalístico, o cara era importante e coisa e tal). Ela argumentou que era uma reunião íntima, que não cabia visitas. Então, o chefe condicionou a folga à ida dele ao encontro e a - agora - produtora consentiu. O encontro se deu em clima amistoso, de confraternização. Mas o chefe resolveu rasgar o protocolo e, num gesto de pretensa intimidade com o convidado de honra, disparou: - O que está faltando para você assumir a paternidade desse menino? (continua)
A PEDIDOS:
Quando meu filho mais velho era pequeno adorava brincar de faz de conta com ele. Brincar de faz de conta ajuda muito os adultos, quando não podem falar a verdade. Os jornalistas usam este tipo de expediente quando querem contar a verdade, mas sabem que, ao contá-la, podem desencadear reações proporcionais à 'octanagem da mistura'. Por isso, apelam para pseudônimos ou recusam-se a dizer os nomes dos personagens. No mundo dos adultos, alegar e não provar, é o mesmo que não alegar. E o ônus da prova cabe a quem acusa, salvo quando o juiz acata o direito de preservar o anonimato da fonte, o que nem sempre acontece, nos crimes de imprensa, ainda mais nos dias de hoje. Portanto, vou contar uma históra que todo mundo vai achar que é de mentirinha e não vai dar a menor 'bola'. E os personagens que se identificarem com ela não precisam nem confirmá-la, nem negá-la, já que é de mentirinha. Que tal? Vamos lá? Se você acredita em escutas ambientais, em espionagem e orelhudos, prepare-se. A talentosíssima repórter, uma das mais brilhantes que conheci, está no estacionamento de um prédio em Brasília. Um edifício funcional, desses cuja a garagem fica no térreo (foto). Quem conhece a arquitetura característica da Capital Federal sabe do que estou falando. Pois bem, um homem importante desce ao andar terreo onde se dá o encontro. Ele abraça a repórter e diz: - Está tudo acabado! Depois, chora copiosamente e é consolado pela interlocutora, que custa a acreditar que aquilo está acontecendo com ela. A mulher que o consola é amiga de outra, pela qual o homem chora. Conforme combinado, antes dele assumir o mais importante posto da República, a mulher por quem chora será exilada na península Ibérica. (Só quem passou por isso sabe como é rigoroso o inverno no exílio). No caso dela, ainda pior. Seguirá levando um filho dele na barriga. (Só quem já passou por uma gravidez solitária sabe como é difícil carregar tamanho peso). Dias depois, este importante homem embarcará para Paris, a cidade luz, onde terá a difícil tarefa de revelar tudo à mulher, com quem já não tem mais aquele fervor, no relacionamento conjugal. (Onde foi que nos perdemos? indagou a si próprio durante um período, até concluir que o crepúsculo conjugal era assim mesmo). Ao receber a notícia, a mulher surtou. Passado o transbordamento, num acesso de racionalidade e pragmatismo, típicos das mulheres, disse: - Eu o perdoo. Os destinos da pátria são mais importantes do que a sua canalhice. Mas quero deixar uma coisa bem clara. De agora em diante, não vou tolerar um mísero gesto de infidelidade sua. Pobre destino... Um grande homem aprisionado por uma tentação mundana e avassaladora. No dia seguinte ao acontecido, a mulher é fotografada ao lado dele com o braço enfaixado. O que teria se seguido? Oficialmente, um acidente doméstico. Extra-oficialmente, consequência de um porre, digno de uma mulher desiludida. Uma dor tão intensa, que seguiu com eles por toda a vida. Historias assim podem nos ajudar a entender melhor a dimensão da existência humana e os interesses que suplantam os ideais de uma nação. E pelos quais muitas organizações são capazes de vender caro o seu silêncio. Este amargo veneno é o que podemos chamar de 'poder paralelo'. E não funciona no Morro dos Macacos.
A palestra motivacional foi num domingo ensolarado. O dia todo! Que tal? Já começamos bem motivados, não acham? Você espera a folga, a família se planeja e, de repente: workshop. Imaginem só a motivação dessa turma às nove da manhã. O primeiro convidado é um engenheiro, que explica como serão as mudanças, depois da construção da nova torre, com vista para a ponte estaiada, o novo cartão postal da cidade que, 'coincidentemente', fica ao lado do Shopping Center de Notícias. Durante a explanação, uma novidade: os funcionários perderão parte das vagas do estacionamento. Seguem-se os protestos. Inclusive o meu. Argumentei que virou direito adquirido. Aliás, para fazer a mudança do centro da cidade para a zona sul, um dos atrativos da empresa tinha sido esse: estacionamento grátis. Detalhe, naquela região é praticamente impossível encontrar local pra parar. Portanto, quem tem vagas disponíveis cobra o que quer. Em seguida, várias outras explanações, 'power points' que demoram a funcionar, microfones com volumes diferentes, aquelas coisas de sempre... Ah, intervalos para o café, com suco de laranja, mini croissants, petit four, os clássicos de sempre. Mas a cereja veio no final, com o palestrante convidado: Bernardinho. Ninguém tem dúvidas da competência do técnico supercampeão, certo? Mas, convenhamos, seu método não é muito bacana para ser transposto do esporte para o trabalho. Só para dar um exemplo: a equipe de volei chega no hotel do outro lado do mundo, depois de horas e horas de viagem, várias escalas, etc. Qual é a primeira coisa que Bernardinho pede? Treino. Mas o hotel não tem quadra? Não tem problema, treina no estacionamento. Mas está chovendo? Não tem problema, treina na chuva. E assim ele vai encantando os 'gestores' da corporação, que tiraram um dinheirão do orçamento para pagar o cachê. Isso, se não fizeram algum acordo do tipo 'permuta', 'merchandising', ou outra regalia qualquer. Três frases sintetizam a palestra do craque: "ele (o chefe) foi duro, ele exigiu muito, mas ele quer o seu melhor. Ser eficiente e ocupar espaços é o caminho do sucesso. Foi bom, foi muito bom, mas pode ser melhor." No fim de um ano duríssimo, em que a equipe estava arrasada, que tal uma palestra motivacional dessas?

14.11.09

Era para ser mais uma daquelas entrevistas sonolentas do telejornal cedo da manhã, no início dos anos 2000. Não fosse o convidado, cujo nome sugeri e sobre o qual não houve vetos, na reunião do dia anterior. O convidado era, e ainda é, um dos mais brilhantes intelectuais do país: Fábio Konder Comparato. Doutor pela Universidade de Paris, Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra e professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Fundador e diretor da Escola de Governo, que tive a honra de cursar como bolsista, no início dos anos 90 (do século passado!). Ele chegou à redação nova (que os colegas apelidaram de Shopping Center da Notícia) com meia hora de antecedência. Cumprimentei-o e dei a ele um exemplar do Estadão, enquanto esperava. Estavamos no corre-corre do fechamento, eu e a Mônica Waldvogel. E, infelizmente, não pudemos dar ao professor toda a atenção que merecia. Mas os telespectadores deram. E quanta! Quando, já no estúdio, Comparato começou a falar e defender suas teses, o telejornal quase veio abaixo. O apresentador e apreciador de vinhos franceses, californianos, australianos e chilenos arregalou os olhos. A comentarista de economia ficou perdida em meio a seus argumentos privatistas, enquanto o professor discursava, quase sem interrupções. Defendeu a legitimidade do MST, a sindicalização, os movimentos populares organizados. Deu voz à democracia e aos Direitos Humanos, num telejornal pouco habituado ao contraditório. Não é preciso dizer que, depois que a entrevista foi ao ar, levamos aquele 'pito' dos chefes. Depois disso, o professor foi parar no index da emissora, ao lado de outros que não falam aquilo que a Corte gosta de ouvir (é o pluralismo deles). Para quem não conhece, Comparato teve um papel político importante, num dos momentos históricos singulares do país: ele foi um dos advogados de acusação no processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992. Em fevereiro deste ano, o professor me encheu de orgulho, mais uma vez. Desafiou a decadente Folha de S. Paulo, depois de mandar uma carta de repúdio à redação, pela utilização do termo "ditabranda", num editorial. Tenho saudades das aulas do mestre Comparato, tão cheio de lucidez e autonomia intelectual.

13.11.09

Da série ficção. A recente demissão da jornalista foi sem justa causa, como a minha. Uma dispensa sumária, depois de 12 anos de bons serviços prestados à emissora. A colega chegou à redação - nos tempos em que funcionava na região central da cidade - nos anos noventa. Fez a carreira clássica na produção, galgando um a um todos os degraus da hierarquia. Chegou ao principal telejornal da emissora, em São Paulo. Lá trabalhou ao lado dos grandes, compartilhou prêmios e fez até uma importante viagem internacional, financiada pela iniciativa privada, já que a empresa, em crise, não dispunha dos recursos para patrociná-la. Viagem estratégica, que serviu inclusive, de ponto de partida para a Corte decidir, anos depois, pela criação de mais um escritório de correspondente, fechado recentemente. Aparentemente, o erro que ela cometeu não foi jornalístico. Foi estar casada com um jornalista que trabalha na emissora concorrente. Assim que ele foi promovido, para ocupar cargo executivo de caráter institucional, a colega foi comunicada que passaria a dar expediente no jornal rural dos organizações. Há pouco mais de quinze dias foi dispensada, sem mais nem menos. Uma carreira de mais de 10 anos de dedicação não pode acabar assim! Principalmente se o profissional é ético, e sabe guardar informações que interessem única e exclusivamente à firma. Estou certo de que ela encontrará acolhida no mercado, caso queira. Mas estou certo também que perseguir pessoas está mais ligado ao tempo das trevas, marca registrada do Guardião da Doutrina da Fé, e de seus seguidores subservientes, do que à luz, tão necessária para quem gosta e sabe fazer televisão de verdade. Mas se me perguntarem se esse tipo de coisa ainda acontece no Brasil em pleno século XXI serei obrigado a negar.

12.11.09

Desde ontem, no início da tarde, todas as empresas jornalísticas do país sabem que o que desencadeou o apagão na noite da última terça-feira foi algum problema na linha de transmissão entre Foz do Iguaçu e São Paulo, mais precisamente no trecho que liga Ivaiporã (PR) a Itaberá (SP) e Itaberá a Tijuco Preto (SP). Há rumores de que a situação naquele trecho é tão crítica - por falta de manutenção desde 1997 - que qualquer brisa pode causar um estrago enorme por lá. Portanto, o que está faltando para uma dessas empresas alugarem um helicóptero e mandar uma equipe para o local, de preferência com um engenheiro eletricista especializado em redes de transmissão a bordo? O que falta é que aquela é uma das regiões mais pobres do estado, esquecida pelo poder público. Lá não existe empreendimentos, patrocinadores, consumidores, nem imprensa. É uma espécie de 'apagão geográfico regional'. Chegar lá é difícil e custa caro. Esta é a grande reportagem que está a espera para ser feita. Quem sabe com um pouco de sorte não tenhamos notícias mais precisas sobre o estado de conservação daquele trecho e mais, o que exatamente aconteceu na noite da última terça-feira. Faz quase quarenta e oito horas que os jornalistas especulam, testam hipóteses, ouvem especialistas (por telefone) e não fazem reportagem. Esse é o jornalismo que fazemos hoje no Brasil, minha gente, e pior, com a minha cumplicidade.
Vivi recentemente uma situação que ilustra bem a dificuldade, também dos leigos, em exercer a função de jornalista. No residencial onde moro há cerca de cem famílias. Numa das reuniões foi decidida a criação de um boletim informativo mensal, batizado de O Pasquim. Não participei da reunião e só vi a primeira edição depois de impressa. Louvei a iniciativa e soube de outros moradores que o boletim é um sucesso. A vizinha, responsável por dar forma final ao jornal, ficou surpresa quando soube que eu era jornalista. Perguntou se eu podia colaborar. Disse que sim, claro! Um dos assuntos do primeiro exemplar do periódico estava relacionado aos limites que precisamos impor às crianças, nas áreas de uso comum no residencial. Como a Alexandra, minha mulher, entende um pouco do tema, ficou curiosa em saber como contribuir com o debate. Conversou com a 'editora' e ficou contente ao saber que poderia enviar sua contribuição no mês seguinte, desde que cumpridas exigências de espaço e prazo de entrega. Quando o artigo saiu publicado, continha pequenas modificações. A Alexandra me consultou para saber como funciona em jornalismo este trabalho de edição. Informei que alterações podem ser feitas para adequar o texto ao espaço, mas é praxe consultar o autor. Quando mandei meu artigo, fiz essa ressalva, no sentido de prestar esclarecimentos sobre como é o nosso trabalho de edição. Mas parece que, pela reação, a editora não gostou muito da 'crítica' que fiz à arbitrariedade da edição. Informar é também uma forma de exercer poder. Por isso, precisamos estar muito vigilantes em relação aos aspectos éticos, para que os colaboradores não se transformem em meros leitores indiferentes. Temos certeza de que este não é o objetivo dO Pasquim.

11.11.09

Esta cobertura sobre o 'novo apagão' será uma boa maneira do público comparar o noticiário, produzido a partir dos jornais da mídia convencional e as informações e análises produzidas pela mídia alternativa. A primeira virá cheia de vícios e conclusões apressadas, típicas dos que já têm um juízo de valor à priori. A segunda, salvo raras exceções, se limitará a apontar os erros da cobertura convencional, sem no entanto acenar para a cobertura que todos estamos querendo. Talvez um caminho alternativo seja consultar o R7, o novo portal de notícias da Rede Record. Hoje cedo, antes das 9h da manhã já tínhamos um resumo factual na home e um vídeo do telejornal São Paulo no Ar, em que o apresentador entrevista ao vivo, por telefone, o presidente da Itaipu. Ali ficamos sabendo que o 'novo apagão' aparentemente guarda pouca relação causal com o anterior. Ficamos sabendo também que a importância relativa da energia produzida pela usina dimunuiu bastante de lá para cá, o que fez diminuir também a nossa dependência. Outra informação relevante é que desta vez não há consumo maior do que oferta, o que é um dado importante para análises sobre o futuro do sistema. E se não houve pane, nem queda de torre, nem algum problema diagnosticável pelo sistema de seguraça, é possível supor até na hipótese de sabotagem. Mas ainda não temos isenção suficiente para procurar causas longe das paixões político-ideológicas, infelizmente.

10.11.09

Da série ficção. É de manhã. Início dos anos dois mil. O colega senta-se na mesa ao lado da minha, pega o telefone e disca para a assessoria de imprensa de uma grande montadora de veículos. Procura o assessor e explica que está querendo comprar um carro daquela marca e pergunta o que o sujeito pode fazer por ele. Não ouço o que diz quem está do outro lado da linha, mas depreendo que a proposta é a seguinte: com o dinheiro na mão o repórter deve procurar a concessionária mais próxima e fazer a encomenda (o modelo que ele quer é especial e não existe pronta-entrega). O desconto combinado será de 30%. Não parece nada ilegal. Tudo é feito às claras, por telefone. Fazer negócios, pedir descontos, o mundo é assim, não é mesmo? Além do que, outras montadoras também oferecem desconto para jornalistas. Pode não ser ilegal, mas é imoral. Por quê? Porque, na melhor das hipóteses, o jornalista terá uma dívida de gratidão com o assessor, que não terá dúvida em acioná-lo se, por acaso, seu patrão tiver algum interesse a zelar no noticiário da hora do jantar. Aqui cabe uma pausa para contextualização. As montadoras de veículos, ao lado dos bancos e da indústria de bebidas, são os maiores patrocinadores de uma emissora de televisão. Tudo bem, esse tipo de privilégio faz parte do mundo atual, todo mundo faz, o assunto divide opiniões... ok. O que dizer então da montadora -- não necessariamente a mesma -- fazer um lançamento mundial da marca destinado ao público 'A' e 'escalar' um repórter badalado, que tem livre trânsito com fotógrafos das revistas de celebridades, para rodar gratuitamente com um veículo desses 'zerinho', pelas noitadas da cidade. E mais, se gostar, depois do período de 'ambientação', pode ficar com o modelo, pela metade do preço. Ele empresta sua imagem ao principal telejornal da emissora, cobra por isso -- está certo que bem pouco, é verdade -- e tira uma vantagem por fora. O que está em jogo, mais uma vez, é uma profissão cuja finalidade é servir ao interesse público, por meio de uma concessão. Que responsabilidade o sujeito tem, ou deveria ter? Se queremos discutir um país melhor, uma sociedade mais justa, devemos ou não nos debruçar sobre estes tipos de 'desvio'? Mas se, ainda assim, alguém perguntar se isso acontece mesmo nos dias de hoje, com repórteres e apresentadores, eu nego.

9.11.09

Jabá é como nós jornalistas chamamos agrados distribuídos aos colegas, em troca ou não de alguma compensação. As principais vítimas são produtores e repórteres (porque estão na linha de frente). O jabaculê (nome completo) é antigo, dos tempos em que as gravadoras pagavam para determinada música tocar no rádio. Há quem diga que ainda hoje a radiodifusão - principalmente nos rincões - só sobreviva graças a ele. Parece que alguns programas de auditório na televisão também utilizam o mesmo expediente, para promover determinados artistas. Algumas emissoras foram além e descobriram um bom filão de mercado e 'profissionalizaram' o jabaculê. Dão a ele o pomposo nome de 'merchandising', que no fundo, no fundo é a mesma coisa, só que - pelo menos - ficou explícito. É o sabonete da atriz da novela, a margarina do café da manhã, etc... Mas o jabá a que me refiro é de outro tipo. Chega na forma de press kits (aquelas pastinhas distribuídas a repórteres, comuns em entrevistas coletivas). Podem conter um bloco com capa de couro e caneta importada, um álbum de fotos, uma gravura, uma aquarela... Às vezes vêm na forma de presentinhos distribuídos nas grandes redações em datas comemorativas. Na páscoa, chocolates, nas noites frias de plantão, pizzas, nas tardes frias de inverno cestas de pães... No Natal então, dá até vergonha. Sempre achei este tipo de abordagem constrangedora mas, infelizmente, se tornou praxe na estratégia de ação das assessorias de imprensa. O resultado é a criação de um vínculo, mesmo que indireto, entre o profissional e a fonte. Quando trabalhava naquela que já deteve o monopólio da comunicação no país, e ainda hoje captura 3 de cada 5 brasileiros sintonizados no horário nobre, era comum aparecer com certa frequência duas 'floristas' e suas orquídeas. Era impossível ficar indiferente a tantos vasos de flores. Uma mais bonita do que a outra. Era apenas um 'mimo', uma 'gentileza', que certarmente custava... e alguém pagava. Talvez todos nós, para desespero da plebe. Seria uma medida saneadora importante se um dia um desses gestores, cultivados na selva do mundo corporativo, determinasse a proibição desse tipo de prática de claro efeito deletério. Mas, quem sabe, fazer vistas grossas também não custa?

8.11.09

Da série ficção. Vamos imaginar que um jornalista que é repórter, com o tempo vire apresentador de televisão. Digamos que esse profissional tenha conhecido e se encantado por vinhos. Suponhamos que desse hobby tenha surgido uma oportunidade de se transformar em comentarista e até em meio de se fazer reportagens especiais sobre adegas e casas vinícolas em todo o mundo, caso quisesse. Digamos que um grupo de apreciadores, sommeliers e enólogos, tenha se reunido em torno de uma confraria, para ao lado do jornalista, degustar vinhos raros, de safras especiais, etc... Com o tempo o grupo descobriu que era possível classificar um paladar adaptado ao país e fazer 'harmonizações' com a culinária típica brasileira, ou mesmo com a culinaria internacional, de excelência. A paixão virou negócio. As pequenas compras viraram importações em boa escala. A especialização permitiu até conquistar representações exclusivas no Brasil de vinhos californianos e australianos, por exemplo, bem adaptados ao calor dos trópicos. Aí eu pergunto: seria possível ao jornalista - a essa altura - exercer sua profissão, sem que houvesse conflito de interesses? Senão, vejamos: O repórter sugere ao apresentador uma reportagem especial sobre a qualidade dos vinhos gauchos, que passaram a ter relevância internacional, com melhoria no plantio, fabricação e envelhecimento. A pauta é vetada. Numa outra ocasião, outro repórter sugere uma reportagem especial sobre o desafio de se plantar uvas e produzir vinhos no sertão pernambucano. A resposta mais uma vez é negativa. Curioso é que esse mesmo telejornal se dá ao luxo de enviar um jornalista para o Chile, para contar a história de uma tradicional casa vinícola daquele país. Tempos depois, mais curiosamente ainda, os experts passam a oferecer no mercado vinhos de origem chilena, sempre elogiados pelo comentarista. Há ou não um tráfico de influência e, consequentemente, um conflito de interesses? O público, sedento por informação sobre vinhos de qualidade ganha ou perde com isso? Discutir uma concessão pública, sobretudo quando o que está em jogo é o acesso à informação, na medida do possível, imparcial e isenta, passa ou não por isso? Quem emprega, quem faz vistas grossas, quem bajula e quem aceita, é ou não, conivente na melhor das hipótes, e cúmplice, na pior delas? Portanto, um jornal que é feito atendendo aos interesses particulares - de um pequeno grupo - deve ou não ter nosso respeito e credibilidade? Se alguém me perguntar se isso acontece no nosso país nos dias de hoje, eu nego.

7.11.09

A Inquisição começou depois das eleições de 2006. O abaixo-assinado foi o instrumento utilizado pelo Guardião da Doutrina da Fé para identificar os 'hereges'. Nem todos tiveram rito sumário. Uns, por exemplo, foram trancados no calabouço. Foram os casos de Carlos Dorneles, Luiz Carlos Azenha, Rodrigo Vianna, eu e outros, que não convém apontar, por razões óbvias: eles continuam amordaçados lá dentro. Mas a pena imposta não foi o bastante para isolar 'os rebeldes', que ainda assim resistiram, mesmo atuando em telejornais menores, com reportagens insignificantes. O mal estar era geral. Conforme os contratos de 'pessoa jurídica' (qualquer hora explico melhor este instrumento de trabalho) iam expirando, as organizações informavam que não tinham interesse em renová-lo, como fizeram com o Rodrigo. No caso do Azenha, o espinho estava entalado na garganta. O portal das organizações hospedava o blog do colega, que confrontava o departamento de jornalismo sem dó (espécie de Giordano Bruno, na imagem retratado por André Durand). Foi a partir do blog que ele conseguiu costurar um acordo. Na mesma ocasião, tentaram minha remoção definitiva para o jornal cedo da manhã, aquele a partir do Rio. Informei que não aceitaria, porque não tinha mais interesse em acordar às 3h, em Vinhedo (75 km de São Paulo), mesmo que um carro da emissora fosse colocado à disposição. Dorneles foi acolhido no jornal rural, que ainda hoje mantém viva uma espécie de 'reserva de valor' do telejornalismo brasileiro. Outros foram se acomodando como puderam e desistindo aos poucos da luta. Só para contextualizar, a Inquisição data de pouco mais de mil e cem anos a partir da morte de Jesus de Nazaré. Como ele prevera, muitos morreriam em seu santo nome. O Tribunal da Inquisição foi usado, em nome do Cristo, pela Igreja Católica, para averiguar denúncias de heresia, feitiçaria, bigamia, sodomia e apostasia (ato de desviar-se ou afastar-se do relacionamento com Deus). As penas variavam do confisco de bens à perda da liberdade, até a morte, não só na fogueira, apesar desta ter-se consagrado. Aqueles que apontavam os 'hereges' adquiriam status e privilégios na comunidade (corporação). Com o passar do tempo, a Inquisição se transformou numa instituição complexa, com objetivos ideológicos, econômicos e sociais, consciente e inconscientemente manifestos. Até o rigor e coerência também tornaram-se variáveis, conforme a ocasião. Por isso, qualquer semelhança histórica por aproximação é bastante cabível.