Uma reflexão pelo Dia da Consciência Negra. Havia um tempo em que "preto não entrava no Bahiano nem pela porta da cozinha", lembra Gilberto Gil. Na letra de Tradição, o cantor fala da infância, quando "quem governava a Bahia era Antonio Balbino (1955-59)". A música me veio à mente ao me lembrar de um fato que ilustra bem a pretensão e arrogância de 'intelectuais' que insistem em achar que nós não somos racistas. Trabalhava como editor de economia naquele que já foi o maior e mais importante telejornal do país. De uma hora para outra, partiu uma ordem que nos obrigava a procurar 'fontes negras'. Ordens assim deixam a chefia excitadíssima. A redação entra em frisson. É obrig - abreviação de obrigatório. Para outros, é rec - abreviação de 'recomendado'. Bom, foi um Deus nos acuda. Os produtores se descabelavam atrás de pessoas que pudessem representar a 'novíssima política de cotas' adotada pelo telejornal. Como abastecíamos diariamente a rede com matérias de economia, o nó foi maior ainda. A única fonte negra nas agendas nem era economista, era o consagrado geógrafo Milton Santos, que não era assim tão bem-vindo, afinal de contas, sua visão de mundo era bem diferente do que consagramos como 'senso comum': "A velha tendência intelectual é considerar o mundo a partir da Europa, e agora dos Estados Unidos. Assim, se exclui a perspectiva da maior parte da humanidade. A cultura oficial brasileira nutriu-se com frequência de uma visão vesga do mundo." Havia um produtor negro entre nós, o Edvaldo,(atalho para o blog dele ao lado)bque não dizia, mas se sentia ultrajado. Mas, voltando ao assunto, tínhamos porque tínhamos que encontrar negros para entrevistar. Eis que surge uma consultoria, dessas que opinam sobre todos os assuntos, de telecomunicações à taxa de juros - e nos apresenta um economista negro. Ufa! Lá fomos nós para a entrevista. Quando a repórter chegou ao local, lá estava nosso economista negro. O homem tremia mais do que vara verde e não conseguia terminar uma frase, sequer. Digamos que a repórter também não era das mais calmas. Resultado, sobrou para o editor cortar um pedaço em que ele dissesse, sem gaguejar, o de sempre: Que tá tudo bem, mas tem que fazer as reformas. Pouco depois, o noticiário ganhou um apresentador negro, mas que só aparece no fim de semana, para dar 'uma cor diferente' ao jornal de branco, que ainda hoje mostra do "alto a fila de soldados, quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos, tratados como pretos, só pra mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pretos). E aos quase brancos, pobres como pretos, como é que pretos, pobres e mulatos, e quase brancos, quase pretos, de tão pobres, são tratados...", para ficar em Caetano, agora amparado por Gil. Quando é que esses 'intelectuais' vão entender que o Brasil não é o Jardim Botânico? Ainda bem que o brasileiro está começando a perceber isso!Este 'post' foi publicado originalmente em 23 de agosto deste ano.





















